quarta-feira, 16 de março de 2005

Esta é que é esta.

Sempre me fez confusão a inércia de certas pessoas. Os jogos de dominó no jardim dos reformados, as telenovelas das donas de casa alugada e outras incapacidades. Sei das razões empíricas e conheço as taxas de alfabetização da geração anterior.

Agora a minha teoria:

As pessoas ditas simples são muito mais sensíveis do que as letradas. Evitam os dramas dos filmes bons e não lêem desgraças menores do que as delas. Ouvir os Joy Division a chorar ou ler Werther de Goethe não lhes interessa. Para quê? Não bastam já as fatalidades que não podem evitar? Claro que bastam. Então qual é a graça?

No fundo as grandes histórias, poesias e óperas não são mais do que imitações da realidade. Endeusadas e artilhadas, mas imitações são o que são.

Gostam os meninos de viajar até à América do Sul e África para viver experiências novas? Porque não viajam, por exemplo, na carreira que parte de Alenquer para Vila Franca de Xira às 7:30 da manhã? Conheceriam de certeza muitos dos Aurelianos Buendía e Úrsulas da vida real. Ainda por cima muito mais vivos do que os do 100 anos de solidão.

P.S. Para que conste, conheço também as teorias que falam mal da arte em geral. As que dizem que esta não passa de mera distracção para presumidos e outras coisas que tais. Poupem-me. Nietzsche e Umberto Eco é no guichet ao fundo à esquerda.