quarta-feira, 9 de março de 2005

A menina dança?

Ela era pouco mais velha do que eu, mas quem nos visse a dançar com o compasso trocado e o pé esquerdo no lugar do direito, como só os adolescentes fazem, juraria que a diferença de idades ultrapassava o par de anos. Era inverno e as camisolas de lã saídas das agulhas de tricot das nossas mães impediam que distinguíssemos o calor da sala do calor dos nossos corpos. Era o tão temido e desejado momento dos slows e foi ao som do agora confragedor “Should’ve Know Better” que percebi que, afinal, as raparigas não são assim tão assustadoras, nem assim tão estranhas, nem os bichos do mato que a minha imaginação tinha desenhado.

Esta dança intemporal aconteceu há mais de 15 anos. Hoje, o calor é o mesmo, os corpos também, os medos são extensões dos antigos. Só a música mudou ligeiramente, como as armações dos óculos que escondem as lágrimas que teimas em prender.