terça-feira, 22 de novembro de 2005

Pieguices.

“That’s me, impossible to forget and difficult to remember.”

Claire Colburn, a personagem de Kirsten Dunst em “Elizabethtown”.


“Singles” era um indício das capacidades de Cameron Crowe (não tanto como realizador, mas como “manipulador”... já lá vamos), “Jerry Maguire” foi mais uma pedra no edifício das pieguices (este menos conseguido, na minha opinião), “Quase Famosos” é, ainda hoje, a obra prima do menino prodígio e, agora, “Elizabethtown”, apesar de ficar uns furos atrás, é tudo menos olvidável.

Para perceber o cinema de Crowe, é preciso perceber a própria natureza dos afectos, sobretudo dos afectos adolescentes, aqueles que o argumentista (muito mais do que realizador) trata com maior mestria. Quem vê um filme de C.C. à espera de uma obra-prima da sétima arte, com uma fotografia genial ou uma direcção artística inovadora, vai sair da sala tremendamente desiludido. Crowe sabe fazer três coisas (e não é dizer pouco): escrever e contar uma história, escolher a música perfeita para cada cena (com uma precisão milimetricamente assustadora) e, sobretudo, dirigir actores. Orlando Bloom, o Legolas anódino de “Senhor dos Anéis”, é aqui um convincente jovem adulto numa encruzilhada característica de uma meia idade (cada vez mais) antecipada. A fraquinha Kirsten Dunst, tão neutra como os filmes que habitualmente protagoniza, dá aqui corpo a uma mulher intensa, que cobre as suas inseguranças com posições fortes sobre a vida e tudo o que esta tem para oferecer. E a química entre os dois é, obviamente, explosiva (mais entre as personagens do que entre os actores).

Além disso, bolas, um gajo que consegue pôr Tom Petty numa banda sonora sem arrastar a coisa para o telefilme xaroposo, apre, há que se lhe tirar o chapéu.

O sofrível "Vanilla Sky", muito mais fraquinho que o original espanhol "Abre Los Ojos" que o inspirou, foi deliberadamente deixado de fora desta cogitação inconsequente.