sábado, 3 de junho de 2006

Não os respeito.

Existe uma razão para a palavra intelectual ter uma conotação depreciativa em Portugal:
A educação da grande maioria dos pensadores deste país.

Os nossos intelectuais são, muitas vezes e ao contrário de outros de fora, pessoas com cursos superiores medíocres, desempregados crónicos, ex-funcionários da fnac ou míseros empregados de más livrarias como o caso da Barata. São pessoas com tempo a mais, e que, no intervalo dos eternos queixumes, lêem pouco. Normalmente pensam que o facto de lerem lhes dá um estatuto automático e instantâneo de superioridade de conhecimentos sobre quem vê montras de lojas chinesas. Irritam-se por a Amália ser do povo e o Fernando Pessoa ser lido por milhares.

Alguns dos nossos intelectuais têm blogs famosos, cúmplices de outros iguais. Queriam à viva força ter um génio como o de Miguel Esteves Cardoso e esquecem-se que um desses aparece de 50 em 50 anos, com sorte.

Nietzsche disse que a cultura é apenas aquilo que alguns homens pensam que os distingue dos outros. Nietzsche pensava.

Os nossos pensadores são iguais ao resto deste país. Quando chegar à altura, também vão fechar os pais num lar de mijões azedos, pensam eles.

Os nossos intelectuais davam o cu e oito tostões para ter um mini, ir mais a Nova Iorque e menos às Amoreiras. Aliás, as Amoreiras é o único centro comercial que dizem que suportam. Não gostam dos carros dos jogadores de futebol mas gostam de T’shirts de algodão insonso com graçolas no peito. Eu acho que muitos vão ao Centro Cultural de Belém mas nunca entraram na Biblioteca Nacional. Desses há uns quantos que nunca viram um peru vivo. Mas vêem séries de merda que compram repetidas na Internet. Às vezes também compram um DVD do Michelangelo Antonioni, um do Peter Greenaway ou vêem os Óscares.

Os nossos intelectuais também fodem como os empregados dos restaurantes tradicionais mas pensam que o fazem melhor que estes.