Velhos no vidrão.
Não é o título de um poema da Odete Santos, mas podia muito bem ser. É um desabafo de um cidadão eco-consciente que, ao colocar o papel no papelão, é interpelado por uma cidadã, digamos, vetusta. A dita velha interroga-o (ao cidadão, portanto, eu - é melhor mudar para a primeira pessoa, que isto, parecendo difícil, é), interroga-me, dizia eu, e interroga-se, dando origem ao seguinte "diálogo", chamemos-lhe assim.
Velha: "Isto é uma fiambreira ou uma rebarbadora?"
Cidadão (portanto, eu): "Desculpe?"
Velha: "Isto que aqui está (apontando para um saco de plástico preto com um objecto volumoso no interior), é uma fiambreira ou uma rebarbadora?"
Aqui notei um tom de impaciência na voz do raio da velha muito adolescente, só lhe faltava o "dah, tecla 3" no final da frase. E eu, a olhar para uma merda de um saco de plástico preto, que tanto podia lá ter dentro o rascunho dos discursos do Bernardino Machado para o próximo debate parlamentar como os intestinos da minha vizinha do terceiro esquerdo.
Eu: "Como é que quer que saiba?"
Velha: "Então não foi você que aqui pôs isto?"
Lynch, Fellini, meninos ao pé da sexagenária, digamos, velha. Aquela merda estava a começar a dar-me arrepios. E era daquelas velhas com mais barba do que eu - fácil, mas ainda assim, creepy.
Eu: "Não."
Velha: "Foi, foi, ainda há bocado."
Eu já só sonhava que aquilo fosse uma fiambreira para poder fazer carpaccio da merda da velha ao jantar.
Eu: "Não, não fui. Quer que veja o que é?"
Velha: "Sim."
Uma vez escuteiro, para sempre escuteiro.
Eu (depois de inspeccionar o conteúdo do suspeitíssimo saco): "É uma fiambreira."
Velha: "Ah, bem me parecia."
"Ah, bem me parecia"? Primeiro: quem é que acha que uma rebarbadora é melhor do que uma sanduicheira? Segundo: para que é que a porra da velha queria uma rebarbadora? Terceiro: porque é que o raio da velha não abriu o saco? Quarto: tendo aberto o saco, uma vez que conhecia o conteúdo, porque é que me obrigou a abri-lo de novo? Quinto: what the fuck is a rebarbadora?
Eutanásia não é uma questão moral, é mais uma questão de "terça-feira dá-te jeito?".
Velha: "Isto é uma fiambreira ou uma rebarbadora?"
Cidadão (portanto, eu): "Desculpe?"
Velha: "Isto que aqui está (apontando para um saco de plástico preto com um objecto volumoso no interior), é uma fiambreira ou uma rebarbadora?"
Aqui notei um tom de impaciência na voz do raio da velha muito adolescente, só lhe faltava o "dah, tecla 3" no final da frase. E eu, a olhar para uma merda de um saco de plástico preto, que tanto podia lá ter dentro o rascunho dos discursos do Bernardino Machado para o próximo debate parlamentar como os intestinos da minha vizinha do terceiro esquerdo.
Eu: "Como é que quer que saiba?"
Velha: "Então não foi você que aqui pôs isto?"
Lynch, Fellini, meninos ao pé da sexagenária, digamos, velha. Aquela merda estava a começar a dar-me arrepios. E era daquelas velhas com mais barba do que eu - fácil, mas ainda assim, creepy.
Eu: "Não."
Velha: "Foi, foi, ainda há bocado."
Eu já só sonhava que aquilo fosse uma fiambreira para poder fazer carpaccio da merda da velha ao jantar.
Eu: "Não, não fui. Quer que veja o que é?"
Velha: "Sim."
Uma vez escuteiro, para sempre escuteiro.
Eu (depois de inspeccionar o conteúdo do suspeitíssimo saco): "É uma fiambreira."
Velha: "Ah, bem me parecia."
"Ah, bem me parecia"? Primeiro: quem é que acha que uma rebarbadora é melhor do que uma sanduicheira? Segundo: para que é que a porra da velha queria uma rebarbadora? Terceiro: porque é que o raio da velha não abriu o saco? Quarto: tendo aberto o saco, uma vez que conhecia o conteúdo, porque é que me obrigou a abri-lo de novo? Quinto: what the fuck is a rebarbadora?
Eutanásia não é uma questão moral, é mais uma questão de "terça-feira dá-te jeito?".

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